200% de valorização e um arsenal de riscos. A Taurus é uma ação para você?

Por Bianca Alvarenga

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Encontrar um investidor que não tenha ouvido falar sobre as ações da Taurus nos últimos meses é tarefa similar à de encontrar uma agulha no palheiro. A fabricante brasileira de armas e outros equipamentos de segurança (como capacetes) tem quase 80 anos de atuação, mas nunca esteve tão em voga quanto agora.

A razão é o rali por suas ações. Desde a escalada de Jair Bolsonaro nas pesquisas eleitorais – e sua concreta vitória – os papéis negociados pela Taurus estão passando por alta volatilidade. Nos últimos seis meses, a valorização acumulada das ações preferenciais (FJTA4) foi de 212% e a das ordinárias (FJTA3),  de 162% – até 17 de janeiro.

Antes do “boom” atual, os papéis da empresa andavam de lado. Em 2014, as ações chegaram a valer centavos. Depois disso, flutuaram na casa de R$ 1 e R$ 2. No momento de pico, registrado em 19 de outubro de 2018, dias antes do segundo turno sa eleições, os papéis preferenciais valiam R$ 12 e os ordinários, R$ 16,69. No pregão do dia 17, o valor de fechamento foi de R$ 5,79 e R$ 5,70, respectivamente.

A euforia do mercado em relação à Taurus (que recentemente trocou o antigo nome Forjas Taurus por Taurus Armas) tem a ver com o compromisso de Bolsonaro de flexibilizar as regras para a posse de armas. O presidente cumpriu sua mais forte promessa de campanha com a publicação de um decreto, na terça-feira 15. O decreto incluiu novas situações em que uma pessoa pode comprovar a necessidade de ter uma arma em casa.

Agora, militares (ativos ou inativos), agentes públicos (ativos e inativos), donos de estabelecimentos comerciais, cidadãos que habitam áreas rurais e cidadãos que moram em cidades com índice anual de mais de 10 homicídios por 100.000 habitantes podem entrar com o pedido de licença para possuir uma arma – desde que cumpram as outras exigências, como de ter mais de 25 anos e não possuir antecedentes criminais. Todas as capitais brasileiras e o Distrito Federal têm taxas de homícidio acima da determinada no decreto, o que coloca grande parte da população como potencial “beneficiada” pelas mudanças.

Na mesma data da assinatura do decreto, a Taurus foi o 5º termo mais procurado nas ferramentas de busca, com mais de 50.000 pesquisas em um único dia.

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Movimentação na bolsa

Na quarta-feira, 16 de janeiro, de manhã, a Taurus emitiu um comunicado oficial, informando que seus controladores haviam vendido 260 mil ações ordinárias e 923 mil ações preferenciais. O volume representa, respectivamente, 3,27% dos papéis ordinários e 0,56% dos preferenciais. A venda não muda a estrutura de controle da empresa, mas foi um bom negócio para os donos. Considerando o valor de fechamento da ação no dia anterior, os controladores da Taurus podem ter embolsado quase R$ 10 milhões em um único dia.

Não foi o único episódio. No dia 3, o segundo pregão do ano, a Tauruspar já tinha vendido 3,56% das ações preferenciais. Em 21 de dezembro de 2018, outra venda: 0,12% de ações ordinárias e 3,17% de preferenciais. Isso revela que não só o mercado está surfando na euforia em relação às ações da Taurus como os próprios donos também têm vendido participação, de acordo com o humor das cotações.

O risco de comprar as ações está na volatilidade. “São oscilações enormes, típicas de movimentos especulativos. O problema são os pequenos investidores que seguiram o efeito manada, compraram quando os especuladores estavam saindo e provavelmente perderão dinheiro”, diz Bruno Madruga, head de renda variável da empresa de assessoria de investimentos Monte Bravo. Ele diz que as ações da Taurus chegaram a entrar em leilão (quando o preço oscila desenfreadamente e a B3 segura as negociações) na terça-feira e alguns investidores não conseguiram emitir a ordem de venda. As ações da Taurus caíram 22% na terça e outros 26% no dia seguinte. Na quinta-feira, subiram 14%. Os analistas dizem que pode haver mais um período de oscilação de altos e baixos.

“Não é uma empresa com bons fundamentos financeiros, mas é uma empresa dona de um monopólio. Até que isso mude, ela se beneficiará”, diz Fábio Bezerra, sócio da Besser Invest.

O presidente Jair Bolsonaro já afirmou, publicamente, que pretende abrir o mercado brasileiro de armas, permitindo que  companhias estrangeiras vendam seus produtos não só para o poder público como também para os cidadãos comuns habilitados com a posse de armas. O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse que o governo está estudando o assunto.

Uma experiente fonte do mercado afirmou, na condição de anonimato, que o momento de baixa nas ações da Taurus foi motivado pela expectativa de mudança. “Correu pelo mercado uma notícia de que o presidente se reuniu com representantes de três empresas estrangeiras para negociar a construção de fábricas de armamento aqui no Brasil”. Ele lista outro fator que estaria desmotivando os investidores: esperava-se que o decreto de Bolsonaro fosse flexibilizar outros pontos da legislação. “No final, fazer o treinamento necessário e comprar uma arma continuará custando caro – não será acessível para todos”.

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Como a Taurus chegou até aqui

A Taurus é a única fabricante de armas brasileira listada na bolsa de valores. Suas ações nunca foram parte da carteira dos melhores gestores e a ela vinha sendo esquecida, por uma série de razões.

A primeira é o contexto legal: desde a sanção do Estatuto do Desarmamento, em 2003, o mercado de armas e munições no Brasil mudou de cena. A venda de armas, antes feita em comércios regulares, foi proibida. Tanto a Taurus quanto a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), outra importante fabricante do setor, tiveram de se adaptar.

A Taurus aumentou o volume de exportações, principalmente para o mercado americano. Hoje, ela é responsável por cerca de 20% das vendas de armas leves nos Estados Unidos e é a maior fabricante de revólveres do mundo.

A empresa teve um faturamento líquido de R$ 623 milhões no acumulado até setembro de 2018 e um prejuízo de R$ 44,6 milhões no mesmo período. A dívida é crescente – chegou a R$ 901 milhões – devido principalmente à dificuldade de entregar resultado. Desde 2012, a Taurus tem fechado seus balanços anuais no vermelho, e o prejuízo acumulado nos últimos anos soma mais de R$ 990 milhões.

“Não há nenhum efeito concreto, como uma recuperação do faturamento, que justifique o interesse pelas ações da empresa”, diz Bruno Madruga, da Monte Bravo.

E o problema da Taurus não está na indústria de armas – que vai muito bem, obrigado. A American Outdoor Brands, dona da marca de armas Smith & Wesson e principal concorrente da Taurus no mercado americano, fechou o ano fiscal de 2018 com receita de US$ 606 milhões e lucro de US$ 195 milhões. A empresa teve resultados positivos em todos os últimos anos. Outras fortes concorrentes como a austríaca Glock e a americana Ruger também estão fechando no azul, apesar de uma queda no número de venda de armas.

O mercado externo corresponde a cerca de 80% da receita obtida pela Taurus com a venda de armamento. Além de abrir as portas para as exportações, a empresa foi bem-sucedida em transformar o Estado brasileiro em um importante cliente, fornecendo armas para policiais civis e militares e para agentes das forças armadas.

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O histórico dos controladores da Taurus

Tudo isso aconteceu em paralelo com um movimento de consolidação no mercado: os donos da CBC tornaram-se, também, os principais controladores da Taurus, sob a sociedade Tauruspar Participações S.A. A Tauruspar detém 61,24% do capital social da Taurus. O quadro societário da Tauruspar é composto por Fabio Luiz Munhoz Mazzaro, Salesio Nuhs, Bernardo Simões Birmann e Richard Gonçalves Silva. Todos pertencem ou já pertenceram ao quadro de executivos da CBC. Nuhs é atualmente presidente da Taurus e Birmann, conselheiro da empresa.

Há muita controvérsia no processo de aquisição da Taurus pela CBC, concluído em 2014. Primeiro porque representou a junção das duas das principais indústrias brasileiras de armamento e munição, em um mercado quase totalmente fechado para concorrentes estrangeiras. Segundo porque o negócio foi costurado de forma atípica. Bernardo Birmann é filho de Daniel Birmann, ex-dono da SAM Indústrias, fabricante de componentes de alumínio e cobre. Há dez anos, a empresa foi à falência, deixando mais de R$ 600 milhões em dívidas.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) acusa Daniel de esconder seu patrimônio em um esquema de rede de empresas, para não honrar os débitos da SAM. Na época da falência, o empresário também era dono da maior parte das ações ordinárias da CBC. Ele se desfez da participação, mas o negócio ficou em família. Além do seu filho Bernardo, que se tornou um dos donos da CBC e da Taurus, a sua ex-mulher, Thais Neves, também já deteve 6% da Tauruspar.

Há menos de um mês, a Justiça determinou o bloqueio de bens da CBC no processo de investigação do patrimônio de Daniel Birmann. A B3 questionou a Taurus em relação à decisão. A empresa emitiu um comunicado, dizendo que não havia recebido nenhuma ordem de restrição sobre seus bens, assim como dos bens da controladora. Em posicionamento divulgado na época da decisão, Bernardo afirmou que não cometeu atos fraudulentos para proteger o pai, e que adquiriu as ações da CBC com recursos próprios.

Além do TJ-RJ, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também está no encalço da família Birmann. Daniel tem uma dívida ativa com a CVM de R$ 336,6 milhões – o valor é decorrente de condenações processuais. A CVM acusa Daniel de dilapidar o patrimônio da SAM, prejudicando os acionistas minoritários, para obter benefício próprio.

A reportagem questionou a Taurus sobre as investigações e a relação com Daniel Birmann, mas não obteve resposta. Após a publicação da matéria, a empresa enviou um posicionamento oficial, cujos principais trechos estão abaixo:

“A Taurus vem passando por uma forte transformação, motivada pelo processo de reestruturação iniciado pela nova administração com apoio da Galeazzi & Associados, que desde o final de 2017 trabalha em conjunto na melhoria dos processos produtivos, financeiros e comerciais.

Conforme o balanço financeiro do terceiro trimestre de 2018, a Taurus apresentou o melhor resultado operacional desde 2009 e está recuperando a sua trajetória. A empresa vem apresentando há três trimestres resultados consistentes, com uma significativa melhora da sua margem bruta (de quase 40%) e importante redução de despesas administrativas e comerciais. Estes fatores demonstram que o processo de reestruturação está sendo bem-sucedido, que os resultados são consistentes e que é uma empresa viável.

A receita liquida da companhia cresceu 16,0% comparada com 2017, demostrando uma forte presença nos mercados internos e externos. A margem bruta consolidada atingiu 37,9% nos primeiros 9 meses de 2018 versus 21,9% no mesmo período de 2017.

A melhora dos custos da companhia resultou em um aumento de rentabilidade de 15,9%, comparado com o mesmo período de 2017. A empresa ainda implementou um rigoroso plano de contenção de despesas que resultou em uma diminuição de 3,8% nas despesas operacionais em relação ao mesmo período de 2017.

Tivemos ainda um importante fato que foi o reperfilamento do endividamento da companhia com seus principais credores, com um alongamento de cinco anos, sendo um ano de carência, e taxas atrativas.”

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Processos nos Estados Unidos e no Brasil

Nos Estados Unidos, uma pistola da Taurus pode custar até metade do que uma similar, fabricada por uma das suas principais concorrentes. Ao mesmo tempo em que ficou conhecida por ter um preço competitivo, a Taurus passou a ter a qualidade de seus produtos questionada.

O portal da revista Bloomberg Businessweek publicou uma longa reportagem no ano passado descrevendo os defeitos que as pistolas e revólveres da Taurus tinham e os processos movidos por vítimas dos disparos acidentais. O texto, assinado pelos repórteres Michael Smith e Polly Mosendz, conta sobre a morte de Jarred Brown, um rapaz de 28 anos, cuja artéria femoral foi perfurada por um tiro de sua pistola Taurus PT-145, que estava presa à cintura, dentro do coldre.

A Bloomberg reporta a existência de pelo menos 16 processos, movidos em boa parte por policiais, contra a Taurus nos Estados Unidos. O número total de ações é desconhecido, mas pode ser muito maior. Em 9 de janeiro, a empresa emitiu um comunicado dizendo que havia firmado um acordo para encerrar uma ação judicial e que concordou em pagar cerca de US$ 7 milhões (R$ 26 milhões) à Justiça americana. Esse processo, movido na Flórida, não é um dos citados pela revista americana.

No Brasil, um advogado da empresa admitiu, em 2016, que ela enfrentava 36 processos na Justiça brasileira, envolvendo casos de disparos acidentais. Promotores do Ministério Público Federal entraram com ação contra a fabricante de armas em 2017, por causa dos problemas descritos. Policiais do Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal, Sergipe, Paraíba, Mato Grosso e Goiânia relataram incidentes com suas armas. Em muitos casos, os próprios agentes de segurança foram as vítimas, mas há também episódio de civis mortos ou feridos acidentalmente.

Os casos fizeram com que o Exército Brasileiro proibisse a fabricação e comercialização de um modelo de pistolas da Taurus. O curioso é que o monopólio da Taurus é garantido pelo Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados pelo Exército (chamado de R-105), que barra a importação de produtos similares aos já fabricados no Brasil – as armas, inclusive – salvo em casos especiais. Uma portaria do Ministério da Defesa ratifica a questão.

Com as próprias autoridades locais insatisfeitas, e a explícita vontade do presidente Jair Bolsonaro de acabar com a reserva de mercado da Taurus, o futuro da empresa pode ser mais nebuloso que o seu presente. E o investidor que pagar para ver pode ser vítima de um tiro no pé.

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