O CrossFit vai derreter como as paleterias mexicanas?

Por Bianca Alvarenga

O CrossFit é uma modalidade de atividade física que reúne exercícios de ginástica, levantamento de peso e aeróbico

No Brasil, há mais de 1.200 boxes (como são chamados os espaços de treino) de CrossFit. A maior parte está concentrada nas grandes capitais

Não muito tempo atrás, andar pelas ruas das principais capitais significava topar com uma loja de paletas mexicanas (picolés recheados, à moda do país do Chaves) a cada bairro. Dependendo da região, podia-se encontrar uma a cada esquina. O fenômeno, que embalou muitos empreendedores a abrir franquias ou paleterias próprias, foi gradualmente murchando. Ficou claro que, apesar de a moda ter pego por um tempo, não havia tanta demanda assim pelos picolés – principalmente no inverno. Estima-se que mais da metade dos lojistas transformaram suas paleterias em outros negócios ou simplesmente fecharam as portas.

Atletas de CrossFit
CrossFit: número de adeptos a essa modalidade de atividade física é crescente

As paleterias não estão sozinhas no rol de mercados efêmeros. Nos últimos anos, as grandes cidades brasileiras viveram a febre dos quiosques de sorvete de iogurte (chamado de “frozen”), das barbearias, tapiocarias e lojas de brigadeiro gourmet – apenas para citar alguns exemplos. Toda vez que uma novidade coloca competidores amontoados a cada quadra, surge a dúvida: esse é um nicho com fôlego para sobreviver?

As academias de CrossFit (ou boxes, como são chamados os locais de treino) parecem andar pelo mesmo caminho – pelo menos no quesito de unidades abertas.

“Todos têm traços comuns: são mercados de nicho, com demanda específica. No entanto, o CrossFit tem uma vantagem em relação às paleterias ou outras modas recentes, pois conhece bem o público que atende e sabe o que esse público valoriza”, analisa David Kallás, coordenador do centro de estudos em negócios do Insper.

No Brasil, há cerca de 1.200 locais cuja fachada está estampada com o nome CrossFit, nome dado à modalidade de treinamento com exercícios de média e alta intensidade. Mas o número total dos locais que usam os mesmos ritos da prática esportiva pode ser muito maior.

A razão para isso tem a ver com o fato de o CrossFit ser uma marca registrada, e não só uma nova modalidade de atividade física. A palavra, grafada com a maiúscula no começo e no meio, é propriedade do americano Greg Glassman. Desde meados de 2000, quando Glassman agregou exercícios de ginástica, levantamento de peso e aeróbico para criar uma nova rotina de treino, o CrossFit foi transformado em um negócio perene – principalmente para o próprio criador.

O americano fatura em torno de U$ 40 milhões, por ano, somente com os direitos de uso do nome. A conta é acrescida pelas receitas oriundas dos cursos e pelas parcerias publicitárias.

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Marca valiosa

Qualquer empreendedor que queira abrir um box de CrossFit usando o nome da modalidade na fachada precisa pagar royalties anuais de US$ 3.000 para a CrossFit Inc, empresa de Glassman. Além dos royalties, é necessário também que o dono do box e os treinadores façam um curso preparatório, ministrado por profissionais ligados à holding americana, que custa US$ 1.000 e que exige renovação a cada cinco anos (mais US$ 350).

As condições são levadas a sério: não é segredo que Glassman tem profissionais contratados em vários países para varrer o mercado e eventualmente processar aqueles que tentam usar a marca sem o devido pagamento.

A CrossFit Inc. tem pouco menos de 14.000 unidades “afiliadas” em mais de 120 países. O Brasil é o segundo país com o maior número de unidades – perde apenas para os Estados Unidos. O setor deve faturar US$ 5 bilhões mundialmente, em 2019.

A exigência do pagamento de uma taxa para usar o nome da marca tem incentivado o surgimento dos boxes que usam nomes genéricos para a prática. Tal saída não é proibida, já que não infringe os direitos autorais. “Cross Training”, “CF” e “Cross Life” são alguns dos títulos alternativos encontrados por quem entrou no mercado, mas não quis aderir às exigências de Glassman.

A Reebok é a única empresa autorizada a usar o nome CrossFit em seus tênis e roupas. E os atletas de competições oficiais obrigatoriamente usam os produtos da marca. Sua principal concorrente, a Nike, está comendo o mercado pelas beiradas. Impedida de usar o nome da modalidade em seus produtos, o que dificulta a venda para adeptos do CrossFit, a empresa está se associando às academias “dissidentes”. A CFP9, box localizado no Rio e que tem como sócio o ator Bruno Gagliasso, conta com eventos patrocinados pela Nike.

Apesar de estabelecer um nome comum para as unidades de treino, o modelo da CrossFit Inc., pertencente a Glassman, não é de franquia. Os empreendedores não têm nenhuma relação comercial com a holding americana, tampouco societária. Ao contrário de redes de franqueados, em que há um planejamento de inaugurações, não há nenhuma restrição sobre abrir unidades próximas às já existentes.

João de Abreu é um dos sócios da CrossFit Brasil, um dos boxes pioneiros no País. Ele diz que, quando o espaço foi fundado, em 2009, eles eram os únicos que ofereciam esse tipo de exercício em um raio de 100 quilômetros. Agora, a CrossFit Brasil se viu cercada por outros seis concorrentes, todos no bairro da Lapa, zona Oeste de São Paulo.

“Chegamos a pensar em abrir outra unidade, mas há duas questões complicadas. A primeira é a do pagamento de royalties, que nos custa um mês inteiro de trabalho. A segunda é a localização: as melhores regiões já têm concorrentes suficientes”, diz Abreu que também é treinador no box CrossFit Brasil.

As localizações privilegiadas para quem quer abrir um CrossFit, segundo Kallás, do Insper, são os bairros em que há maior adensamento de residências ou de escritórios. A prática dos exercícios costuma acontecer antes ou após o trabalho, por isso os clientes priorizam o fácil acesso na hora de escolher seu CrossFit.

Na região do Itaim Bibi, zona Sul de São Paulo, seis boxes disputam os alunos que trabalham no entorno. Na Barra da Tijuca, bairro da zona Oeste do Rio que mescla conjuntos empresariais e condomínios de médio e alto padrão, são sete academias, no total.

É a aglomeração de competidores nos mesmos quadrantes que dá ao CrossFit a mesma fama das paleterias mexicanas. Mas, apesar do aparente modismo, há um fundamento para a aposta no setor.

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Geração-saúde = mercado-saúde?

Segundo dados da Euromonitor, empresa global de pesquisa de mercado, 30% dos brasileiros afirmam fazer exercício de uma a duas vezes por semana. Outros 14% dizem fazer de uma a duas vezes por mês e 7% alegam se exercitar quase todos os dias.

A busca por uma vida mais saudável, ou por outros benefícios da atividade física, incentivou o surgimento de locais para a prática. Ainda de acordo com a Euromonitor, há quase 27.000 locais para prática de atividade física no Brasil (academias e clubes, por exemplo), um salto de 14% em relação a 2013. O consumo de suplementos alimentares, produtos buscados por quem se exercita frequentemente ou com intensidade, dobrou no mesmo período.

Além do crescimento nas academias de nicho, como o CrossFit, outro fator que fomentou a expansão do setor “fitness” foi a popularização das academias comuns. Redes como Smart Fit, Blue Fit e Just Fit criaram planos com preços competitivos, capazes de atrair as massas. A primeira, líder no segmento, tem 2 milhões de alunos e mais de 500 unidades.

Juliana Hungria, sócia da CrossFit Brasil, acredita que não há competição entre as academias comuns e o seu negócio.

“Acredito que o público das academias seja diferente, habituado a outro tipo de atividade física e disposto a pagar menos. A mensalidade em uma rede é de R$ 70; já o CrossFit custa em torno de R$ 300”.

Quanto custa abrir um CrossFit?

Montar um box de CrossFit custa relativamente pouco: em torno de R$ 300 mil, de acordo com quem empreendeu no setor. Já uma academia comum demanda alto investimento nos equipamentos. Uma única esteira pode custar até R$ 30 mil e não é difícil encontrar dezenas delas em unidades da SmartFit e das outras redes “Fit”.

O preço “salgado” das mensalidades do CrossFit é decorrente do custo da “mão de obra”. A hora-aula de um professor de CrossFit pode custar oito vezes mais que a de um instrutor de academia. Além disso, enquanto as academias comuns têm um professor para centenas de alunos, a dinâmica do CrossFit demanda turmas pequenas. “A realização dos exercícios exige espaço, então o aluguel também tem um peso relevante”, alerta Abreu, da CrossFit Brasil.

O custo pode ficar ainda mais pressionado se a competição bater no preço das mensalidades. O surgimento de concorrentes, principalmente os que usam nomes “alternativos” para não pagar os royalties, tem mexido no mercado e comprimido as margens de lucro dos boxes. Esse é um fator importante a ser analisado por quem quer investir no CrossFit.

São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília concentram cerca de 30% das unidades totais existentes no País. Por isso, abrir um box em uma capital demanda um estudo cuidadoso de oferta e demanda. Já em regiões em que o CrossFit ainda não vive o fenômeno “paleteria”, como nos estados do Sul, Norte e Nordeste, pode haver melhores oportunidades.

É impossível saber se o CrossFit vai ganhar musculatura nos próximos anos ou se derreterá diante da próxima academia “da vez”. A diferença entre a modalidade esportiva e os outros modismos está no seu público-alvo. Os adeptos são considerados devotos – um estudo de Harvard colocou o CrossFit na lista de práticas com os mesmos traços das religiões – e há um mercado potencial imenso, enraizado na conscientização da população adulta sobre a importância da atividade física para uma melhor qualidade de vida.

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