Pezão guardou dinheiro embaixo do colchão. Você deveria fazer o mesmo?

Por Isabela Borrelli

Foram encontradas diversas moedas estrangeiras na cela de Luiz Fernando Pezão, governador do Rio de Janeiro que está preso desde novembro

Manter uma reserva de dinheiro em espécie é uma prática bastante utilizada por muitos brasileiros. É exatamente aí que surge a dúvida: ainda vale a pena guardar dinheiro embaixo do colchão?

Guardar dinheiro embaixo do colchão ainda é um hábito de muitos brasileiros. O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (MDB), não é uma exceção. Preso desde novembro pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal na operação Boca de Lobo, um desdobramento da Lava Jato, por ter recebido uma mesada de R$ 150 mil, Pezão mantinha uma reserva financeira em sua cela. Na sexta-feira 21 de novembro, uma varredura no Complexo Prisional da Polícia Militar do Rio de Janeiro, em Niterói, onde o político está preso, encontrou diversas moedas estrangeiras com o governador.

dinheiro embaixo de colchao

O total encontrado foi de 70 euros, 36 dólares, 6 mil pesos colombianos e 25 ienes, que somados dão R$ 450. Detalhe: cada detento pode possuir, no máximo, R$ 100. É difícil responder por que Pezão mantinha 4,5 vezes mais dinheiro do que o permitido na prisão, mas, assim como ele, muitos brasileiros têm o mesmo comportamento, tanto para moedas estrangeiras como para reais. A dúvida é: ainda vale a pena guardar dinheiro embaixo do colchão?

É permitido ter dinheiro vivo em casa?

Antes de entrarmos nessa discussão, é preciso entender se é permitido por lei guardar dinheiro em espécie em casa e se há um valor máximo liberado. Segundo o economista Rogério Cauduro, autor do livro “Mande no $eu Dinheiro”, é sim permitido ter dinheiro em espécie em casa, desde que seja declarado no imposto de renda para tributação e comprovação da origem.

Uma vez declarada a quantia, não há um limite pré-determinado. No caso de uma viagem internacional, é permitido deixar o País com até R$ 10 mil, independentemente da moeda. Para valores superiores, é preciso fazer uma declaração no site da Receita Federal.

Com cartões de crédito e débito e aplicativos que aceleram os serviços de bancos, tornando-os quase instantâneos, o dinheiro físico está caindo em desuso. No entanto, há muitas pessoas que acreditam que manter uma parte das suas reservas em espécie pode ser uma garantia ou até um investimento.

Alex Agostini, economista-chefe na Austin Rating, lembra que essa prática ainda é muito comum entre a população de baixa renda, que não tem acesso fácil ao sistema financeiro e acaba preferindo guardar o dinheiro em casa.

Vale a pena guardar dinheiro embaixo do colchão?

“Jamais, em qualquer hipótese, guarde dinheiro em espécie em casa. Primeiro, pelos riscos naturais de sofrer um assalto e perder tudo. Segundo, pela perda de valor dele”, diz o economista Alex Agostini.

De fato, se der algum problema com o seu banco, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que protege correntistas e investidores, garante até o valor de R$ 250 mil. Já se você deixa suas economias em casa e é roubado… Bom, não há garantias.

Além disso, em relação à perda de valor citada pelo especialista, é simples: se o dinheiro fica parado, ele não se ajusta à inflação. Logo, você perde dinheiro. Por exemplo, em dezembro de 2017 você tinha R$ 1 mil e decidiu deixar esse dinheiro guardado em casa para usar no fim de 2018. Se utilizarmos o IPCA, indicador oficial de inflação que o Banco Central utiliza para balisar as taxas de juros e que deve fechar o ano em 3,5%, você teria perdido, aproximadamente, R$ 35.

“Se dividirmos esse valor por R$ 4,50, que é mais ou menos o preço do litro de gasolina, você teria perdido 7,8 litros de gasolina nesse período. Ou seja, você poderia ter feito uma viagem de quase 80 km ou então comprado dois ingressos para o cinema”, afirma Agostini.

Mas não para por aí. Se o dinheiro fosse investido na poupança ou no CDB, dois investimentos conservadores (ou seja, com baixíssimas chances de perda) oferecidos por bancos, a diferença seria ainda maior. Considerando o mesmo período de tempo, aqueles R$ 1 mil iniciais investidos na poupança resultariam num ganho de R$ 10,50, já descontada a variação da inflação. No CDB, o lucro sem a inflação seria de R$ 18.

Guardar moeda nacional só faz sentido se for como reserva

Para Cauduro, a única situação em que faz sentido ter real em espécie é para o caso de manutenção, por exemplo, de condomínio e outras possíveis despesas. Já o valor varia de acordo com o padrão de vida das pessoas. “Se você tem um padrão de vida modesto e tem R$ 40 mil em casa não faz sentido. Mas, se a sua família gasta R$ 20 mil por mês, ter uns R$ 15 mil em casa faz algum sentido”, diz ele.

Em outras palavras, o banco ainda traz vantagens para quem quer guardar (e rentabilizar) as economias.

E como ficam as moeda estrangeiras?

Afinal, existe diferença entre guardar moeda nacional ou estrangeira embaixo do colchão? Adiantamos que sim!

No caso de moedas estrangeiras, a situação é diferente e mais complexa. No mundo, há diversas moedas e nem todas são confiáveis. Segundo Agostini, tudo depende de qual moeda estamos analisando. “Em geral, moedas de países emergentes podem sofrer uma forte desvalorização. Quem mora perto da fronteira e faz comércio com o país vizinho, ao manter dinheiro em casa perde nesse momento, por exemplo. É  o risco da variação cambial”, afirma ele.

Mas faz muito sentido ter dólar americano, euro ou iene como fez Pezão. Essas moedas não apresentam grandes problemas, uma vez que elas são mais estáveis exatamente por serem fundamentadas em economias muito fortes e dificilmente vão sofrer uma grande desvalorização.

Outro risco de ter moedas estrangeiras em casa é devido à renovação das cédulas, prática frequentemente utilizada para evitar fraudes e falsificação. No caso, quanto mais antiga uma nota, mais difícil de ela ser aceita.

Moeda estrangeira como investimento

Devido à flutuação do valor entre as moedas, a reserva física tem uma característica peculiar: a utilização como uma “espécie” de investimento. Se o seu objetivo é ter alguns dólares com essa finalidade, Cauduro recomenda que seja um investimento de curto prazo, uma vez que é possível fazer a conversão do dinheiro rapidamente para o real.

“A sua carteira de investimentos deve ser de 20% a 30% de curto prazo, 30% de médio prazo e o restante nos investimentos de longo prazo. A relação da moeda [estrangeira] entraria no investimento de curto prazo e não pode ser muito, porque você terá de pensar em outros investimentos para diversificar essa carteira”, afirma Cauduro.

Mas essa é uma estratégia indicada para investidores experientes, porque há riscos. Agostini descarta a prática e lembra da crise de 2008, que abalou fortemente o valor do dólar. “Vamos supor que você tinha US$ 1 mil em setembro de 2002, quando a cotação era de quase R$ 4 por US$ 1. Isso equivalia a aproximadamente R$ 3,9 mil. Se você guardou esse dinheiro para uma emergência, em julho de 2008 ele estava valendo apenas R$ 1,6 mil.”

Guardar moeda estrangeira é mais indicado para quem vai viajar

Ter moedas estrangeiras embaixo do colchão vale mais a pena se você tem uma viagem em vista. Rogério Cauduro indica que, nesse planejamento do passeio, vale a pena comprar moedas estrangeiras estáveis, como o dólar. Isso vai protegê-lo das oscilações entre a compra da passagem e o momento do embarque. Além disso, se todos os gastos forem realizados via cartão de crédito, haverá um custo mais elevado devido ao IOF.

Mas, em casos de viagens para países do Sudeste Asiático, que ainda estão fortalecendo a própria moeda e dependem muito da estabilidade de outras economias, o risco é bem maior. “Nesse caso, o recomendado é colocar o dinheiro no cartão de viagem ou comprar muito próximo da data da viagem, cerca de 30 dias antes”, afirma Agostini.

Além de todos os erros dos casos de corrupção e de gestão do Estado do Rio, o governador Pezão deixou outro mau exemplo.

 

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