A empresa que nasceu para fazer cabelo crescer

Por Isabela Borrelli

Como um empresário preocupado com seu cabelo enxergou a oportunidade de criar um negócio que está em um mercado que deve movimentar US$ 211,1 bilhões até 2025

Em apenas três meses, o Centro de Tecnologia Capilar dá os primeiros sinais de ser um bom investimento, mas ainda há desafios a serem enfrentados

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A marchinha de Carnaval Nós, Os Carecas exalta que “são dos carecas que elas gostam mais”. A certa altura, a letra de Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti questiona: “Pra que cabelo? Pra que, seu Queiroz?”. A música pode ser uma boa diversão, ao contrário da calvície, que vem se tornando um enorme problema para a sociedade moderna. Cada vez mais estudos demonstram que não ter cabelos faz diferença e tem uma influência muito negativa nos fenômenos mentais e emocionais de homens e mulheres.

Os pesquisadores alemães Ulrike Blume-Peytavi e Wolfgang Harth, da Universitätsmedizin Berlin, hospital das universidades Humboldt e Livre de Berlim, descobriram que o afinamento dos fios de cabelo pode resultar em condições como a tricotilomania – impulso de arrancar pelos ou fios de cabelo – e, em alguns casos, evoluir para um sentimento de desfiguração, depressão e ansiedade.

Infelizmente, a calvície não é um problema de poucos. Cerca de metade dos homens até 50 anos de idade são afetados pela falta de cabelo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). As mulheres não ficam atrás: de acordo com Adam Friedman, da Faculdade Montefiore-Albert Einstein, de Nova York, 50% das mulheres com 50 anos terão o mesmo problema.

Em 2018, o filho do empreendedor Pablo Lopez, preocupado com a queda de cabelo, procurou uma clínica especializada e enxergou uma oportunidade de negócio. Conforme o cabelo respondia aos cuidados e os fios nasciam mais fortes, ele foi se perguntando: valeria a pena investir na criação da própria clínica de tratamento capilar?

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O nascimento de um negócio

A paixão por empreender falou mais alto e Lopez, consultor de recursos humanos que traz a experiência de outros negócios, como um café no Shopping Iguatemi e uma rede de formação de profissionais, decidiu abrir o Centro de Tecnologia Capilar (CTC).

Mesmo com a agenda tomada por inúmeros compromissos, a família Lopez dedicou um tempo importante para avaliar o potencial da ideia de montar uma clínica de tratamento capilar. Antes de a CTC abrir as portas, eles procuraram conhecer o mercado e planejar a atuação para ter a certeza de que o investimento valeria cada centavo. E a visão empreendedora deles não estava errada: o mercado global de cuidados para cabelo deve movimentar US$ 211,1 bilhões até 2025, de acordo com a Grand View Research.

“A primeira coisa que fizemos foi levantar uma planilha no Excel com receita, imposto, custos de marketing digital, pois acreditamos que essa será uma parte importante, entre outros. Também olhamos para o mercado para saber quanto custa uma consulta e um tratamento, por exemplo”, diz Lopez, ao detalhar o plano de negócio.

Ao fazer o planejamento, os sócios imaginaram o pior cenário possível, em que seria preciso gastar dinheiro durante um ano inteiro sem ter nenhum retorno. A partir dos números, constataram não só que a empresa realmente valia a pena como também definiram quanto deveriam investir no projeto.

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A formação do Centro de Tecnologia Capilar

Embora Lopez tenha cumprido todo exercício necessário para criar um novo negócio, a ajuda de um especialista foi fundamental. O dermatologista Francisco Le Voci, especialista em tratamento clínico e cirúrgico de queda de cabelo, foi apresentado por um amigo em comum da família e se tornou o conselheiro do CTC. Após o aval da experiência do médico, com a ajuda de outros investidores-capitalistas, ele decidiu investir R$ 470 mil em novembro de 2018 para montar a clínica – R$ 300 mil foram usados para a reforma do imóvel e a compra dos equipamentos.

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Espaço do CTC onde os tratamentos contra queda de cabelo são aplicados

Em fevereiro de 2019, o CTC abriu as portas oficialmente para o público em um prédio comercial na rua Pequetita, paralela à movimentada avenida Presidente Juscelino Kubistchek, na Vila Olímpia, uma das regiões nobres de São Paulo. Quem já circulou pelo bairro sabe que a hora do almoço é um verdadeiro furor. Enquanto os incontáveis escritórios esvaziam-se rapidamente, o comércio mais variado possível prospera. Para atender à alta demanda, a Vila Olímpia conta com uma infraestrutura variada, de todos os tipos de bares e restaurantes a academias, lojas, consultórios médicos e cabelereiros. Todos buscam a sua vez para quem quiser dar escapar durante uma hora.

“Quando pensamos em ter a clínica na Vila Olímpia, sabíamos que era um lugar em que a pessoa consegue fugir do trabalho. É possível vir ao CTC na hora do almoço, de manhã ou de tarde”, diz Lopez, justificando o endereço privilegiado e a importância de estar no meio do burburinho.

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Os diferenciais do CTC

Essa fugidinha na hora do almoço é ideal para uma consulta inicial, onde o médico responsável examinará o couro cabeludo do paciente com um aparelho de tricoscopia digital, que aumenta 250 vezes a imagem e possibilita ver os fios e a pele em detalhe. O primeiro passo da calvície é quando os fios começam a ficar mais finos do que o normal. Se o afinamento dos fios não for tratado, a tendência é piorar gradualmente até o estágio irreversível da ausência total de cabelos. Uma vez nesse estágio, o único jeito de resolver a situação é por meio do implante capilar, técnica muito mais intrusiva se comparada aos tratamentos de recuperação da espessura dos fios, que são capazes de controlar a queda e o afinamento até revertê-los. Após a avaliação do especialista do CTC, o paciente poderá passar pelas seguintes etapas de tratamento:

  • Alta frequência capilar: equipamento em formato de pente que gera uma corrente elétrica que ajuda a estimular o couro cabeludo.
  • Capacete de Led: um capacete que emite luz led e beneficia o cabelo por meio da fototerapia, dando mais brilho e volume.
  • Luz de Quartzo: como se fosse um mini aspirador, é responsável por fazer vacuoterapia e aumentar a irrigação do bulbo capilar.
  • Micro Mist: aparelho similar a um secador de cabelo de pé, é um aparelho ultramoderno e promete recuperar cabelo seriamente danificado.

Por fim, o tratamento mais intrusivo e destinado a quem está com a calvície mais avançada é a Microinfusão de Medicamentos na Pele (MMP). Com uma maquininha similar à utilizada para fazer tatuagens, o profissional injeta no couro cabeludo do paciente o remédio necessário para estimular o crescimento do cabelo. “Se a pessoa faz microagulhamento, a recomendação é que não lave a cabeça em umas oito horas pelo menos”, afirma Lopez.

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Um início bastante próspero

Em menos de 100 dias de sua abertura, o CTC já atendeu 130 pacientes. Ao todo, a clínica conta com oito funcionários, sendo três médicos que se revezam ao longo da semana e são responsáveis pelo diagnóstico dos pacientes. Há ainda três terapeutas, que auxiliam nos tratamentos, a secretária e o gerente, um profissional de confiança dos sócios que responde pelo dia a dia do negócio.

“No total, oito pacientes já terminaram os tratamentos, mas dois ficaram tão felizes que quiseram continuar para fazer manutenção. Nós nos organizamos de uma forma que eles vêm de uma a duas vezes por mês na clínica”, afirma Lopez.

Não dá para negar que o futuro parece brilhante. Com menos de três meses, os sócios afirmam que o CTC alcançará logo o breakeven, momento em que a empresa começa a pagar as próprias contas – atualmente em R$ 40 mil por mês. Uma vez consolidado o negócio, os empreendedores já miram na expansão. Antes disso, no entanto, há desafios a serem enfrentados.

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O desafio do tratamento capilar

Os sócios sabem que terão de lidar com dois desafios com os pacientes: a desinformação e o tabu da calvície. Esses dois problemas têm levado a clínica a ter um alto índice de não comparecimento às consultas. Mesmo ligando para confirmar, cerca de metade das pessoas não comparecem no horário agendado. Para o empreendedor, uma das possíveis causas é que as pessoas olham para o tratamento como algo estético e, por isso, consideram adiar o início do tratamento.

Para melhorar esse problema e impactar o público dos sonhos dos empreendedores – homens e mulheres entre 30 e 45 anos das classes A e B –, eles estão apostando no marketing digital. Uma das estratégias é fazer, por conta própria, campanhas pagas no Google e no Facebook e procurar atrair quem faz buscas sobre o tema. A outra é trabalhar na educação e na conscientização das pessoas.

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Aprendizados e dicas dos empreendedores

A principal lição de Pablo Lopez para os empreendedores é ser pessimista. Ao fazer um plano de negócios, considere sempre o cenário mais negativo. Assim, você estará preparado para qualquer coisa – até mesmo para o lucro. Por sinal, é a partir do planejamento que se calcula quanto dinheiro será usado como respaldo financeiro caso o pior aconteça.

Outro cuidado é a preocupação elevada dos empreendedores com o produto final, seja com a estética do consultório ou com a qualidade dos aparelhos, que precisam ser de tecnologia mais avançada. Esse olhar ajuda a atrair as pessoas para o seu negócio.

Por último, lembre-se que um negócio é formado por um time de pessoas, que precisa conhecer o mercado de atuação da empresa e o perfil dos clientes. Mesmo assim, nada substitui o cuidado incansável dos donos.

“Não importa qual é o seu negócio, é sempre um negócio de pessoas. Você vai precisar de pessoas para vender, para tocar o dia a dia e para produzir. Por melhores que elas sejam, elas não vão ter a mesma dedicação e o entusiasmo que você, o dono do negócio”, diz o sócio do CTC.

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