Empreendedora “por acaso” conta como aprendeu a gerir seu consultório

Por Fernanda Santos

A dentista Milena Louzas começou a vida de empreendedora atendendo crianças em uma salinha alugada de apenas 8,5 m², no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo

Seis anos depois, ela administra a própria clínica especializada por onde passam mais de 3 mil pacientes por ano

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Empreendedora “por acaso”, Milena Louzas conta como aprendeu a gerir seu negócio de odontologia pediátrica

Quando se formou em odontologia, Milena Louzas, 37 anos, nunca imaginou que um dia teria um consultório especializado no atendimento de crianças. “Eu não escolhi o que faço, a vida me deu sinais e fui me achando”, afirma ela.

Tudo começou em 2005, logo no fim da faculdade. Para ajudar a aluna recém-formada a ingressar no mercado de trabalho, um dos professores de Milena ofereceu emprego em sua rede de clínicas populares. A única vaga disponível era na área de odontologia pediátrica.

“Por necessidade, eu fui. Fazia clínica na cidade inteira, um dia da semana para cada lugar. Fui vendo que eu levava jeito”, diz Milena, sobre o começo da carreira.

O professor também percebeu que a dentista tinha aptidão com crianças e ofereceu meia bolsa de estudos para que ela se especializasse no atendimento infantil.

No começo, Milena ficou insegura sobre a escolha, hesitou, mas decidiu aceitar. Fez a especialização e, no fim do curso, conseguiu emprego em uma clínica da área, onde trabalhou por três anos. Em 2013, após adquirir uma boa experiência, a dentista percebeu que era hora de seguir com as próprias pernas.

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Milena começou a procurar um local onde pudesse atender por conta própria. Encontrou uma sala pequena, na Vila Olímpia, bairro nobre da zona Sul de São Paulo, na casa de uma senhora que precisava da renda de aluguel para complementar a aposentadoria. A sala tinha apenas 8,5 m², tão pequena que não chegava ao tamanho mínimo exigido pela Agência Brasileira de Vigilância Sanitária (Anvisa), de 9 m². “Mesmo assim, eu recebia a família inteira do paciente ali. Era uma loucura”, diz a dentista.

A especialidade em que havia decidido seguir, a odontologia pediátrica, preocupava um pouco Milena. Apesar de haver poucos consultórios especializados no atendimento de pacientes infantis, a dentista diz que essa é uma área que não costuma pagar bem. Por isso, ela resolver insistir nesse caminho por dois anos. Se não tivesse bons resultados, mudaria de área.

“Na época, o que me dava mais desespero era pensar na agenda vazia. No primeiro mês, eu tive apenas 6 pacientes. Hoje, acho que devia ter aproveitado o tempo livre”, diz ela.

Pensando exatamente nesse período de transição, ela continuou trabalhando um dia da semana em uma clínica no Tatuapé, bairro da zona Leste paulistana, onde morava. Essa renda do emprego fixo pagaria as principais despesas do mês. “Por mais que minhas decisões tenham parecido radicais, eu pensei muito antes. Tinha medo de faltar dinheiro”, afirma a dentista.

Depois de quase 3 anos atendendo na pequena sala alugada, Milena deu o segundo grande passo como empreendedora e buscou um espaço maior. Ela e uma colega de profissão alugaram duas salas em um prédio comercial, também na Vila Olímpia, e passaram a revezar o atendimento com outros 3 profissionais. Em 2015, nascia o consultório Criança no Dentista.

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Nesse período, o maior desafio de Milena foi lidar com as preocupações. Ela, que sempre fez questão de manter as contas fixas controladas, perdeu o sono quando alugou a sala nova e viu as despesas aumentarem.

Para ficar mais conhecida e atrair pacientes, Milena teve algumas boas ideias. Entrava diariamente em um grupo de mães no Facebook e respondia, da forma mais completa possível, todas as dúvidas relacionadas à odontologia. “Mãe é o melhor cliente da Terra. Elas indicam muito quando confiam, tiram foto, põem no grupo de WhatsApp. Elas têm uma rede que é fenomenal”, diz a dentista.

O empenho teve resultado: o Criança no Dentista cresceu, o número de pacientes aumentou e a empreendedora sentiu necessidade de migrar para um espaço um pouco maior. A princípio, a ideia era alugar apenas mais uma sala no mesmo andar em que atendia, mas o proprietário do local não foi nada aberto ao pedido.

“Se tem uma coisa que aprendi é que no mundo do pequeno negócio você apoia muito o outro, porque você está crescendo junto. Ele rejeitar meu pedido foi uma das coisas que me deixaram mais bravas na vida”, afirma Milena.

Por fim, ela encontrou outro locatário e conseguiu alugar 4 salas no andar de cima. Usou o dinheiro que estava economizando para a aposentadoria para fazer a mudança e recomeçou, desta vez com uma estrutura maior e um novo nome: Família no Dentista.

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Nessa etapa, com a empresa já maior, a empreendedora decidiu profissionalizar o consultório, contratar mais funcionários, e organizar a gestão financeira. Como tantos outros empreendedores, Milena não nasceu sabendo tocar o negócio próprio e teve que aprender tudo na prática – fez cursos no Sebrae, pesquisou muito e pediu ajuda aos amigos.

Um deles foi o consultor financeiro Eduardo Amuri, autor dos livros Finanças sem Medo e Finanças para Autônomos. O especialista a ensinou como negociar com fornecedores, estipular preços para seus atendimentos e organizar melhor a vida financeira.

Provavelmente, a parte mais importante de toda essa organização das contas foi definir um salário mensal para Milena, que, no caso dos donos de negócios, é chamado pró-labore. Essa garantia deixou a empreendedora mais tranquila, pois hoje ela sabe com quanto pode contar todos os meses, independentemente da sazonalidade do negócio.

“Eu tinha um lado muito sofredor, achava que tinha que só trabalhar e não podia gastar. O negócio estava crescendo e eu não estava curtindo o processo. O Eduardo Amuri ter organizado minhas finanças me ajudou a curtir”, diz ela.

A retirada mensal fixa também ajuda Milena a manter o caixa da empresa mais saudável. Como o salário da dentista não aumenta nos meses de mais movimento, como dezembro, é possível usar o lucro para melhorar o capital de giro do consultório e sustentar os meses de menor movimento, como fevereiro.

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Outra ajuda importante que ela teve ao longo do caminho foi da terapeuta. Segundo ela, as sessões a ajudaram a manter a calma diante dos problemas, especialmente em relação aos funcionários. “Quando minha primeira secretária se demitiu, eu tive uma gastrite. Hoje, ensino todos os meus funcionários a fazerem tudo. Se alguém falta ou sai, os outros podem cobrir”, diz Milena.

Para fortalecer a marca, ela também investiu no espaço do consultório novo: na sala de espera, montou uma brinquedoteca onde as crianças se divertem enquanto não chega a hora do atendimento. Segundo ela, os brinquedos deixam os pacientes mais receptivos e ajudam a divulgar o consultório, pois as mães gostam de postar fotos do lugar nas redes sociais.

“A gente pensa muito no macro, mas o que faz o negócio rodar são as pequenas atitudes. Para você ter uma ideia, eu testei 30 perfumes até achar um cheiro para usar no meu consultório”, afirma Milena.

Atualmente, a empreendedora tem 6 funcionários, incluindo uma gerente que cuida da gestão financeira. Fora ela, outros 8 dentistas atendem na clínica Família do Dentista. Do primeiro consultório, de 8,5 m², para cá, o número de pacientes saltou de 339 (em 2013) para 3.360 (em 2018).

Quando questionada sobre os planos para o futuro, Milena tem uma certeza: está feliz com o negócio e não pretende expandir muito mais. “Eu tenho uma qualidade de vida que não tem dinheiro no mundo que pague. Eu não fiquei milionária, mas venho trabalhar a pé e consigo viajar. Estou feliz assim”, responde ela, com um sorriso de quem encontrou o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional.

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