Começar um negócio no vermelho é um desafio grande demais, diz especialista

Por Bruno Freitas

O consultor financeiro Eduardo Amuri lançou recentemente seu novo livro: Finanças para Autônomos (Editora Benvirá, 2018). O trabalho mostra as possíveis saídas para quem tem de organizar a vida financeira trabalhando por conta própria. Nas 264 páginas, o autor descreve desde o drama da precificação de produtos ao dilema da aposentadoria, uma experiência que ele divide em cursos online, que foram lançados em 2017. 

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Amuri tem como característica apresentar ferramentas para que as pessoas possam construir, com inteligência, uma nova vida financeira. Nesta entrevista, o autor de Dinheiro Sem Medo (veja o vídeo sobre ele no nosso programa no Youtube, o IQ Entrevista) analisa os principais erros cometidos pelos autônomos e dá dicas sobre o que fazer nas situações mais difíceis.

IQ 360 – O autônomo tem de olhar com mais atenção para as finanças do que um profissional com carteira assinada?
Eduardo Amuri – 
Qualquer autônomo joga o jogo financeiro no modo hard, sabe? Enquanto o funcionário CLT só se preocupa com os gastos, porque os ganhos são fixos e vem no mesmo dia, o autônomo precisa se preocupar com as duas pontas: controlar os gastos dele e da atividade profissional ao mesmo tempo em que tenta dar um jeito de fazer os ganhos acontecerem. Ele precisa se preocupar na entrada e na saída, que é uma preocupação que o CLT normalmente não tem. Então, logo de saída, já é mais complexo. Além disso, ele lida com oscilações que nem sempre estão sob controle. Por mais que ele tenha planejamento e goste dos números e das planilhas, o mercado vai se movimentando. Surgem concorrentes, somem concorrentes, a economia aquece, a economia esfria, e ele não tem controle sobre essas sazonalidades de mercado. Então, com certeza, é muito mais difícil.

Pela sua experiência, é possível traçar um panorama financeiro do autônomo no Brasil?
Amuri – Tem o autônomo que optou por ser autônomo, já que a profissão dele encaminha para esse lado. É o caso de um artesão, um dentista, um arquiteto ou um jornalista, que é freelancer. Eles não têm muita escolha. O nicho em que trabalham geralmente é formado por autônomos. Então, tem esse pessoal que foi inevitável. Mas existe uma turma que entrou por opção, que falou “eu quero ser meu próprio chefe” e começou uma vida de autônomo, de pequeno empresário. Tem perfis muito diferentes. É difícil traçar “o” perfil do autônomo. Eles chegam por vias diferentes, mas é fato que todos enfrentam desafios parecidos relacionados ao mercado e à inabilidade em gestão. Mesmo os cursos mais quadradinhos de bacharelado e graduação não oferecem tantas cadeiras de gestão. Um engenheiro, por exemplo, que fez um curso na área de exatas e, em teoria, entende mais de números, não teve tantas aulas de gestão financeira quanto deveria para gerenciar um escritório ou uma pequena construtora. Os autônomos se veem completamente despreparados. Tem um buraco grande aí que as instituições mais populares não dão conta de tanta demanda.

Mas quais são os dilemas mais comuns?
Amuri – Ele não tem conhecimento básico para enfrentar um fluxo de caixa mínimo. Ele traz os vícios de uma vida assalariada para uma vida de autônomo. Esse é um ponto importante, porque quando você erra numa vida assalariada, você tem um tempo maior e mais chances de colocar a vida nos eixos rapidamente. Mas quando você erra na vida autônoma, a coisa é muito mais cruel. Você sofre com esse efeito muito mais vezes. Um exemplo muito prático: você é um assalariado de 25 anos e tem um trabalho que paga R$ 4 mil por mês. É um bom salário no Brasil de hoje. Mas, no último mês, você gastou mais do que deveria no cartão de crédito. Só que no dia 30 do mês seguinte, você vai ter os mesmos R$ 4 mil de salário. Então, é só ter paciência e economizar para a conta fechar. Agora, se você for autônomo, nada garante que no mês seguinte ao estouro do cartão de crédito você vai ter renda. Pode ser que você tenha um mês ruim de negócio.

Agora, pensa na situação: seu cartão está carregado de gastos e você não tem salário. Nenhuma entrada de dinheiro. Você tem poucas chances de errar, caso tenha caído no primeiro erro de não ter um fluxo de caixa coerente. Geralmente, o autônomo também não faz um bom planejamento fiscal e tributário.

Então, às vezes, ele declara não saber muito bem como funciona. Outro ponto fraco do autônomo é não estar bem assessorado. Ele não tem um contador, um advogado de confiança, uma pessoa que ajude no marketing. E, por último, mais uma dificuldade: o autônomo geralmente tem de ser perito em muitas coisas, dando conta de muitas áreas diferentes. Ele tem de ser o cara do financeiro, aquele que vai implementar o serviço, que vai vender, vai divulgar. Estão aí os dilemas dos autônomos.

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Finanças para Autônomos, de Eduardo Amuri
264 páginas. Editora Benvirá (Saraiva)

Onde comprar?
Site oficial
Amazon (ebook)

Para saber sobre o autor, acesse seu site pessoal

Com o aumento grande no número de autônomos no Brasil, quais são as melhores práticas para essas pessoas abrirem seu negócio com as finanças saudáveis?
Amuri –
Ninguém acorda numa terça-feira de manhã falando que é uma boa hora para fazer um planejamento financeiro. Não vai surgir a vontade para olhar suas finanças. Pode ser que aconteça. Mas não vai ser algo presente na sua rotina, se você não inserir esse espaço de tempo na sua semana. Um tempo para olhar para os números e não para produtos, serviço ou marketing. É preciso separar um espaço na sua semana só para os números, porque muita informação surge daí. Porque é natural que você sinta necessidade de rever seu preço, de vender de outra forma, de oferecer para outro público. Esse é o olhar financeiro.

Então, se eu pudesse indicar só uma atividade que embasa todas as outras, é abrir um espaço na semana para olhar para os seus números.

Se alguém já está endividado e quer começar um negócio, ele pode dar esse passo de maneira saudável?
Amuri – 
Olha, eu não começaria um negócio endividado. Vou contra esse hype do realize sua vida trabalhando e montando seu próprio negócio. Se a pessoa tem condições de ir testando o próprio negócio, experimentando essa atividade autônoma, tendo um emprego antes e sanando as dívidas, construindo uma “reservinha” que seja, com certeza vai aumentar exponencialmente  as chances de o negócio dar certo. É um desafio grande demais para qualquer pessoa começar um negócio no vermelho.

Se você tem a possibilidade de se segurar mais um pouquinho no emprego e ir adaptando, pensando, planejando e sonhando seu negócio enquanto está empregado, as suas chances de dar certo são muito maiores. Mas claro, se for inevitável, vai e mete a cara, fazendo o que dá pra fazer. Mas geralmente é uma péssima ideia. É uma resposta meio chata, mas é a real.

Para quem já é autônomo e se encontra em uma situação difícil, o que pode ser feito?
Amuri – 
Todo passo a passo que eu sugeriria para um autônomo que não está no vermelho, eu sugiro também para um autônomo que está. Porque olhar para os números é muito importante. É importante colocar esses números no papel. Conversar com outras pessoas que estão no mesmo ramo que você também é super importante. Aliás, vale ressaltar: é importante o autônomo conversar com outros autônomos que são de áreas parecidas. A gente tem mania de achar que as pessoas são concorrentes e isso é um grande erro. É engraçado, porque as vezes organizo eventos com psicólogos e ninguém fala quanto cobra a sessão. Fica uma espécie de segredo na sala. Mas, quando um fala, o outro acha legal e aí começa a falar. É importante saber. 

Não sei se teria um conselho específico para quem está no vermelho. Quando ela está nessa situação fragilizada, tem um empurrão a mais para que repense a vida financeira dela como um todo.

É muito comum eu cruzar com um autônomo que está há seis meses faturando menos do que gasta. E tem onde cortar para deixar a vida dele mais barata. Mas ele está sempre acreditando que no mês que vem será melhor. Então, às vezes, quando a pessoa está endividada, é necessário encarnar uma postura pessimista para se prepara para o pior. Pensando que “bom, se eu faturar só R$ 500 no mês que vem, qual é a vida que eu posso montar para me manter mais ou menos enquanto vou tentando ajeitar as coisas?”. Mas a pessoa não dá esse passo para trás na vida financeira pessoal e nos gastos dela como um todo. Ela continua com uma vida cara. E quando se tem uma vida cara, tem uma bola de ferro muito grande para arrastar. Esse processo de simplificação da vida se faz muito necessário quando você está começando e está endividado. Tudo bem ter uma vida cara quando você fatura muito dinheiro. Não é o ideal e o mais interessante a se fazer na minha visão, mas é ok, você não vai sofrer com isso.

Mas se você não está conseguindo fazer seu negócio girar, ter uma vida cara vai tornar tudo muito pior. Vai fazer com que esse problema venha com muito mais força e muito mais rápido.

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