2019 será tão produtivo quanto 2018 foi para as fintechs?

Por Isabela Borrelli

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O ano de 2018 foi de crescimento e consolidação no segmento de serviços e produtos financeiros no Brasil. Segundo um levantamento do hub FintechLab, o número de fintechs aumentou em mais de 30% em relação a 2017, ritmo semelhante ao registrado nos anos anteriores.

Com o crescimento no número de players no mercado, os serviços também se diversificaram. Hoje, as fintechs atuam em mais de 10 categorias, como pagamentos, crédito, bancos digitais, gestão financeira, seguros e investimentos. A oferta mais abundante de produtos e serviços é essencial para garantir aos clientes, empresas e investidores a melhor escolha, além de incentivar a competição no setor.

Também em 2018, o Brasil viu seus cinco primeiros unicórnios (startups que atingiram valor de mercado superior a US$ 1 bilhão) surgirem. Três deles estão dentro do mundo das fintechs: Nubank, Stone e PagSeguro. O crescimento orgânico das fintechs e o interesse dos investidores pelo segmento tende a aumentar os aportes em 2019, levando a um número maior de unicórnios brasileiros. Uma pesquisa feita pela Visa mostra que apenas uma em cada cinco fintechs já recebeu algum tipo de investimento de venture capital ou de investimento-anjo.

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Ganhando território

O setor de pagamentos ainda é o que detém mais players no ambiente de fintechs – faz todo sentido que dois dos unicórnios, Stone e PagSeguro, venham daí.

“Esse é um nicho que tem pouca competição, o que gera muita ineficiência e boa margem operacional – não só no Brasil, mas no mundo também. Por isso, há a atração de um volume maior de fintechs”, afirma Guilherme Horn, diretor de inovação da Accenture.

Apesar do surgimento de novos players, mais de 70% do mercado de pagamentos ainda é dominado pela Cielo e Rede – a primeira é controlada por Bradesco e Banco do Brasil, e a segunda é um ativo do Itaú. Esse cenário era pior anos atrás, quando as duas detinham mais de 90% de participação no volume de pagamentos processados.

Os serviços B2B (business-to-business) passaram por um processo de consolidação mais profundo, mas a tendência também é de crescimento do perfil B2C (business-to-consumer), especialmente no segmento de crédito, um dos que mais carecem de competição. Vale lembrar que os cinco maiores bancos brasileiros (Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander) ainda têm em mãos mais de 80% do volume de financiamentos.

A dominância dos bancos também implica em uma série de ineficiências nas operações, brecha onde as fintechs costumam atuar. Cerca de três quartos do crédito imobiliário, por exemplo, está em contratos feitos pela Caixa. Os bancos privados reduziram mais ainda sua atuação no segmento, por aversão a risco. O encolhimento do volume dos financiamentos de habitação contribuiu para a explosão no número de distratos (como é chamado o processo de devolução de um imóvel na planta) nos últimos anos.

A Bcredi é uma das fintechs que olham para o nicho de financiamento de imóveis. Todo o processo é feito on-line, o que reduz o tempo de consulta e aprovação do crédito. Nos bancos, um cliente espera, em média, 40 dias até que seu financiamento saia, enquanto que na Bcredi o prazo é de 10 dias, aproximadamente. Apesar da agilidade na aprovação, o lado negativo ainda é o custo: as taxas de juros anuais são superiores às cobradas pelos bancos tradicionais.

O crédito para empresas, especialmente para as micro e pequenas, também sofreu retração nos últimos anos. Analistas atribuem parte da morosidade na recuperação da economia ao alto endividamento do setor privado e à dificuldade do acesso ao crédito. Fintechs como a Nexoos, Biva e BizCapital já oferecem linhas de financiamento para empresas, inclusive para micro e pequenos empreendedores. Elas buscam o ganho de eficiência em uma análise de crédito mais criteriosa. Os bancos têm mais dificuldade, ou até se empenham menos, na elaboração de um score preciso para quem fatura pouco. E muitas vezes acabam não ofertando crédito algum.

Nos empréstimos com garantia, onde há mais oferta e interesse dos bancos, também há uma tendência de crescimento da participação das fintechs. Nesse nicho, elas têm tido mais sucesso em conseguir taxas mais atrativas. Empresas como a Creditas conseguem bater as taxas dos bancos em algumas linhas de crédito com garantia – ganham, especialmente, dos bancos menos eficientes no segmento, como a Caixa.

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As regras do jogo

A tendência de expansão no mercado de crédito foi, em boa parte, impulsionada pelas mudanças regulatórias. A gestão do economista Otávio Ribeiro Damaso à frente da diretoria de regulação do Banco Central (BC) foi muito elogiada pelo mercado por promover importantes debates e mudanças para incentivar o ambiente de inovação financeira.

“Há um incentivo para que novos modelos de negócios entre as fintechs de crédito surjam”, diz Horn, diretor da Accenture.

Em 2017, o BC fez uma consulta pública sobre as fintechs no mercado de crédito. A consulta resultou na primeira grande mudança regulatória para as empresas do segmento. Em abril de 2018, o Conselho Monetário Nacional (CMN) publicou uma resolução que criava duas novas categorias de instituições de crédito: a Sociedade de Empréstimo entre Pessoas (SEP) e a Sociedade de Crédito Direto (SCD). A primeira permitiu que fintechs intermediassem operações de crédito (ou seja, que pavimentassem o empréstimo entre um cliente e um investidor). A segunda regulamentou a prática de concessão de empréstimos por plataformas on-line.

Na prática, a nova norma permitiu que fintechs concedessem crédito sem a intermediação de um banco, o que reduziu os custos dos financiamentos e abriu novos horizontes para o segmento. Segundo o BC, a regulamentação foi criada para “fomentar a inovação, aumentar a concorrência e permitir a atuação de novas instituições financeiras”. Além disso, houve um reforço na confiança e segurança das operações, já que a norma criou ferramentas para fiscalizar mais de perto o setor. A iniciativa está dentro da agenda da autoridade econômica para reduzir o custo do crédito no Brasil.

Houve um processo de credenciamento de instituições e, em dezembro de 2018, a QI Tech, uma plataforma eletrônica de concessão de empréstimos, foi a primeira a ser formalmente autorizada a operar no novo modelo. Outros 11 pedidos estão em análise pelo BC e é certo que o número de fintechs autorizadas aumentará em 2019.

Outra mudança importante foi a permissão de capital estrangeiro em fintechs. Quem empreende no setor acaba se deparando com os labirintos burocráticos, como o que exigia uma assinatura do presidente do Brasil para que um empreendedor estrangeiro abrisse uma empresa de serviços financeiros por aqui. O colombiano David Vélez, fundador do Nubank, esbarrou nessa barreira quando estudava a expansão da atuação da empresa para outros serviços, além do de cartão de crédito. Em outubro, um decreto derrubou a regra e dispensou a necessidade de autorização do chefe-maior do Estado para a atuação das fintechs com capital estrangeiro.

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O que esperar de 2019?

Apesar dos importantes avanços regulatórios, as mudanças concentraram-se no setor de crédito. Existe uma infinidade de outros serviços oferecidos por fintechs e esses continuam no risco da não-regulamentação. Isso significa que a linha entre o que é ou não permitido inexiste, o que aumenta a incerteza na atuação das empresas e incentiva o ceticismo dos consumidores.

A maior expectativa do mercado é em relação à mudança regulatória que abrirá caminhos para o open banking no Brasil. Na prática, espera-se que a nova regra determine que bancos compartilhem informações dos clientes com fintechs. O objetivo seria muni-las de mais dados para determinar qual é o produto mais adequado ao cliente que ela deseja atrair, além de melhorar as condições de elaboração de score de crédito.

Em uma segunda etapa, as fintechs poderiam efetuar transações nas contas dos bancos. Tudo isso, claro, desde que o próprio cliente autorize o acesso.

“O Banco Central do Brasil está acompanhando o que as autoridades europeias já fizeram, e está aprendendo com os erros e acertos das práticas já existentes”, aponta Horn, diretor da Accenture. Ele diz que ainda não se sabe se esse primeiro arcabouço regulatório fará a abertura esperada pelas fintechs que atuam no open banking, ou se será uma mudança gradual.

Outra revolução no horizonte é a no setor de seguros, ainda não explorado plenamente pelas fintechs. Segurize, Bidu e Kakau são apenas algumas das startups chamadas insurtechs, responsáveis por oferecer seguros de forma mais simples e ágil para os clientes. Com base em análises mais precisas do perfil e das necessidades do contratante, as insurtechs promoveram importantes ganhos no preço das apólices. Mas a Superintendência de Seguros Privados (Susep), órgão que coordena o setor, ainda não empacotou as mudanças regulatórias que vem sinalizando fazer. Uma delas, por exemplo, seria a permissão de “customizar” os seguros, de forma que novos produtos fiquem disponíveis na prateleira.

Com o reaquecimento da economia, o mercado consumidor ajudando de um lado e o reforço regulatório contribuindo de outro, espera-se que em 2019 as fintechs continuem no caminho de ascensão experimentado em 2018.

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